Cultura Amazônica e Preservação Ambiental
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  • AMAZON GARDEN?

    Posted on setembro 30th, 2009 Orlando Carneiro 2 comments

    blog_sao_bentoHá propostas de intocablilidade da Amazônia. Seria assim como se um imenso jardim, inexplorável. Há ameaças de retaliações internacionais, se não se concretizar a idéia de que ninguém pode entrar mais no mato. Acabados outros espaços, vamos preservar a nesga (em termos planetários) que restou. E as gentes, que aqui vivem? Condenadas à estagnação? Transfere-se Belém, Manaus e todas as outras cidades, vilas e povoados, tribos, para onde? Aliás, tribos, não: elas estão aí desde que o mundo é mundo. E se saírem, com quem negociarão algumas das “ONGs” cujo interesse pelos silvículas é estranhamente novo? Volta-se ao entorno: se ele se tornar intocável, muitas das atividades econômicas serão prejudicadas.

    O radicalismo muitas vezes (maioria? Minoria? Como mensurar?) embota a compreensão. Há estudos sérios e de comprovada eficácia, de sustentabilidade. Há um potencial teórico a ser constatado ou desmentido antes de qualquer outra medida a ser adotada na região. O espaço da Amazônia é uma dádiva que não deve ser destruído sem volta para benefício de uns poucos, para o exercício de atividades que não são o seu destino mais inteligente. Dádivas devem ser aproveitadas com inteligência. A ninguém é dado o direito de delas abrir mão.

    Ninguém se iluda: as riquezas estão mapeadas alhures, e a “defesa” veemente que a gringalhada faz deve ser traduzida, na sua maioria, por conceitos antigos, tipo “ninguém tasca, eu vi primeiro”, ou o passional “se não me pertence, não pertencerá a ninguém”.

    Uma palavra deflagraria as ações necessárias a um procedimento correto: seriedade. Com ela, deveriam silenciar os que (são tantos, meu Deus!!) vivem acometidos da chamada “volúpia do destaque”, que não colocam no peito uma melancia, para que sejam noticiados, e surjam fotografados com ar de inconvencível seriedade, talvez porque não gostem de carregar peso, se metem e intrometem em tudo, desde o que para tal são pagos pela sociedade, extrapolando para o que não lhes diz respeito, o que é abominável.

    A Amazônia não é um jardim. O paisagismo é uma arte, equilibra os elementos disponíveis e acrescidos -inclusive vegetais – para deleitar sentidos. Palmeiras bem escolhidas, para que suas características sejam ressaltadas, podem ensejar a que se olhe para elas com agrado, longos momentos, principalmente se inseridas num ambiente de fim de tarde como estas registradas por mim no Mosteiro de São Bento, em Brasília, para (re)visitas, pois perenizadas no visor da máquina, no computador e em papéis, além do mais importante registro que é o da memória pessoal. Isto é paisagismo. Isto é ajardinamento. A Amazônia, não!! A Amazônia não é um jardim!!

  • E n´é que n´é? O Sonho em Quadrinhos da Revista Pororoca

    Posted on junho 7th, 2009 Orlando Carneiro No comments
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    Detalhe do Quadrinho "Sonho do Carneiro".

    “E n´é qui né”? Era um jogo de palavras, que na brincadeira do meu tempo criança se usava ao se deparar com o inusitado. “E n´é qui né”? Foi o que pensei, num regresso da mente a tempos felizes, ao saber que parte da minha vida havia sido quadrinizada pela Revista Pororoca, em seu segundo número.

    A revista é séria, é bonita, é indicadora de rumos. Pois fui avisado: “O Sonho do Carneiro” – bosque que plantei em Marituba, cidade da região metropolitana de Belém, Pará – “virou história em quadrinhos”, foi-me dito assim, como se coisa simples, comum. E foi?

    E n´é que foi? Pois eu estou lá, em canoa, em trilhas pelo meio do mato, em conversa com índio, tudo atrás de mudas que pudessem ser preservadas, num grito mudo contra esta insensatez que troca o mil pelo seis. Não sou um super herói, sou um ser fragilizado, mas sou, antes de tudo, um amante da Amazônia, testemunha viva da degradação da floresta. Depois deste texto, leiam os a seguir, publicados no meu livro “Novelário”, para que vejam que, desde 1979, ano da publicação do livro, (e mesmo antes), eu já gritava contra o avanço da destruição sem peias, em outros textos/colaborações espalhados pelos jornais da terra.

    Eu sempre disse, quando me perguntam de quem a culpa pelo descalabro com relação à Amazônia: do Governo. Não este, não aquele: todos os que se identificam pela palavra, pode ser comandado por Professor Doutor, ou por Operário Torneiro que no fundo é tudo igual. Madeira não se transporta via satélite: vai via rodoviária, ou marítima. Não é pouca, não é leve, não é camuflável: se ela vai, pode ser vista. Como consegue passar? Uma. Outra. Lei manda que se mostre certificado de procedência, que lá fora a maioria exige: se vendem armário de mogno, declarando ser de eucalipto, a culpa da queda daquela árvore de mogno, virada móvel, é de quem não fiscaliza a mudança, tanto quanto de quem derrubou a árvore, e de quem fabricou o móvel sem nem querer saber de onde veio aquela madeira, sobrando para o comprador, que não deveria comprar sem questionar. Queimou-se a mata para criar boi: tinha licença? Quem deve saber? Quem deve perguntar? O Governo.

    Ah, não tem licença? Vai pastar, desgramado, palavra que identifica aquele que não tem nem pode ter, (ao menos ali), a grama que vai substituir sabe-se lá quantos cem anos da criação de um espaço formado longa, silenciosa e cuidadosamente pela natureza. Quem compra o móvel proibido é culpado? Tudo que bem: é, também. Mas quem deveria ter criado, desde muito tempo, nas crianças, a consciência do certo/errado? O Governo, pois deveria ter obrigado a escola, além de ensinar que b com a faz BA, e que Ivo viu a uva, a orientar a meninada rumo à cidadania, dizendo entre outras coisas: se vires uma loja vendendo mogno e outras madeiras relacionadas com apuro no rumo da extinção, grita, esperneia: é o teu país que está empobrecendo de graça, e tu serás uma das maiores vítimas, mesmo que longe da derrubada, dos seus efeitos!

    “Ah, mas a biopirataria é uma realidade”. Acreditem, se quiserem: o spilanthol, substância encontrada no nosso velho jambú, conhecido dos indígenas antes da chegada dos europeus, tem patentes internacionais pedidas nos Estados Unidos, França, Inglaterra e Japão. Está virando pasta de dentes e perfume. Não tardará e iremos diminuindo o grito do que “é nosso”, e deixaremos de dizer que “a Amazônia é nossa” e mentiremos até ao dizer que “o jambú é nosso”, pois nem ele será mais! Não quero ser repetitivo: mas de quem a culpa? Nem digito, para não perder tempo. Só um argumento: quantas e quais as ONGS que funcionam na Amazônia? Quais, e para que recebem incentivo do Governo?

    É o ribeirinho que tem que responder a estas perguntas, fazer o controle? Ora, “se espremer”, como diz o caboclo, no caldo tirado ninguém deverá se surpreender se aflorar a informação que o Governo paga biopiratas para que eles façam melhor o seu trabalho! Toda grande Nação começa pelo investimento maciço na educação. No Brasil ainda se está na fase de greves por salários, uma Secretaria Estadual de Educação distribui mapas com dois Paraguais e obras de Kama Sutra para estudantes pré-adolescentes…

    Desde por volta de 1980, esquadrinhei a Amazônia para catar mudas ou sementes de espécies cada vez em menor número na floresta. Porque? Para perseguir um sonho (que virou o Sonho do Carneiro): se a clonagem via células, de vegetais, se sedimentar, vencer os desafios, não apenas na multiplicação, que esta está quase toda dominada, mas na sanidade dos resultados, na possibilidade da monocultura, uma folha de uma árvore poderá ser usada para recriar a espécie. Coisa assim, simples, sem maiores pretensões.

    Se tem quem ache que esta ação não resultará em nada, tem quem pense que a atividade é inteligente, é corajosa, é admirável. E sabe o que mais? Depois de um certo tempo tateando meio como que no escuro, ao ver quanto caminho percorrido, ao ter conseguido tanta coisa difícil, ao ver o bosque formado, igual a tantos pisados, ao ver aves e mamíferos cada vez mais raros de se ver em regiões metropolitanas, trazidos ao Bosque pelo faro do seu destino, passei a acreditar um pouco nos conceitos assim adjetivados.

    E eis que, de repente, aquele desenhado ali na Pororoca sou eu, aquela história é uma parcela da minha história pessoal, que rebuscou até um episódio dos idos 60 do Século passado, quando foi lançado o “freezer” em Belém do Pará e eu fazia um comercial “ao vivo”, saindo dele e proclamando que dali saía “até um carneiro vivo, mesmo que com quase dois metros e cem quilos”…. Ao ler a revista, quase eu viro, de Carneiro, Pavão, mas não: vou continuar assim, o Carneiro que sonha em meio ao pesadelo que assola a Amazônia. Só um “mais”: procure conhecer a Revista Pororoca. Vale a pena. Ela, por si só, é uma bela história de amor com a Amazônia.

    AMAZÔNIA. Crônica publicada no meu livro NOVELÁRIO, em 1979

    Voando, vê-se fumaça

    Uma aqui, outra distante. Uma à esquerda, outra à direita.

    Em avião pequeno, fácil identificar.

    Vôo baixo, árvores empretecidas.

    O rasteiro substituindo o copado alto.

    Em avião maior, difícil detalhar.

    É um verde que não acaba mais.

    São águas serpenteando em meio ao verde.

    De repente, a notícia.

    Foi fogo tanto, que satélite se assustou.

    (Um destes, que estão sempre detalhando a terra da gente)
    Amazônia
    Ainda que te expliquem,

    que justifiquem,

    já foste mais verde, para quem, como eu, nasceu pisando teu chão,

    andando e vendo,

    testemunhando.

    Eram, eram sim, mais árvores. Muito, mas muito mais.

    Era, era sim, mais verde. Muito mais.
    Quantificam o teu desaparecimento, dizendo ser bobagem a mutilação.

    Com ares superiores, desdenham a quem teme pelo teu futuro.

    E estás menor. Ampliam tuas fronteiras teóricas, amazonizando até terras áridas.

    Na pintura do mapa, lê-se pomposamente “Amazônia Legal”.

    E tu, a verde, a dos rios, és ilegal?

    Se depender de ti o oxigênio do mundo, que as futuras gerações aprendam a respirar oxigênio em lata.
    Historiadores e estudiosos debruçam-se em detalhes para saber como áreas verdes do planeta terra transformaram-se em deserto. Seremos nós testemunhas oculares do processo?
    Amazônia.

    Orem por ti, os que te amam

    AVE, MAJESTADE. Crônica publicada no meu livro NOVELÁRIO, em 1979

    Para que pudesse vir Sua Majestade, foi preciso muita coisa. Mudar tudo. Primeiro: S.M. não gosta de terreno arborizado. Que sejam derrubadas todas as árvores do local.

    O chão era úmido. Pedaços dele há Séculos não viam um raio de sol.

    As folhas caíam, apodreciam no solo, na umidade, em um renovar constante de fertilidade.
    Mas vinha aí S.M.

    E foram as árvores, nobres e plebéias, ao solo. Inclusive algumas cuja presença mantinha imutáveis margens de igarapés.

    Um trabalho insano, para atender S.M.

    Não apenas derrubar: queimar, acabar.

    O sol quente ressecou a terra que foi um dia permanentemente úmida e fértil.

    Os igarapés viram suas margens desnudadas, a erosão desenhando sucos nas laterais, até que o caminho de água se tornou para sempre chão duro.

    Replanta neste terreno seco. Tira a água das entranhas da terra, irriga, traz energia, canaliza. Atende a S.M.

    Terra exposta? Replanta

    Olha que bonito: a água esguichando em rotação, vitória, vitória, filma e fotografa mais uma beleza criada pela inteligência humana.

    E crescem as plantinhas. O vento, forte, arriando e levantando talos e folhas, como se em balé sincronizado, em imensa área, onde antes era um impenetrável ajuntamento de troncos.
    Eia, pois, tudo pronto.

    Que venha Sua Majestade, o BOI.

    Ao invés de oxigênio, respire o homem bosta de boi.