Cultura Amazônica e Preservação Ambiental
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  • CARANÃ, A PALMEIRA AZUL DA AMAZÔNIA

    Posted on maio 23rd, 2009 Orlando Carneiro 3 comments

    Bismarkia Nóbilis

    Bismarkia Nóbilis

    Os paisagistas têm popularizado duas palmeiras que se destacam pela diferença de cor que apresentam: azuladas, são chamadas de “palmeiras azuis” – e são, realmente, belíssimas - a bismarquia nobilis e a brahea armata. São mais bonitas quando jovens, mas a sua juventude é longeva e alindam um espaço durante muitos anos, e mesmo quando adultas, suas folhas se destacam pelo inusitado da cor, incomum nas folhagens do mundo vegetal.

    Pois não é que a Amazônia tem uma palmeira
    azulada? Tem. É a Caranã. Palmeira cespitosa, espinhenta, com espinhos que não se apresentam na fase jovem com a intensidade com que se apresentam na fase adulta, ou seja, os espinhos são mais agressivamente presentes na fase adulta da planta, quando o seu tronco perde a coloração mais azulada, que permanece nas suas folhas, principalmente na área inferior, para alegria dos amantes da beleza. Se cotejadas (foi o que fiz no Bosque Sonho do Carneiro) com as exóticas ornamentais, despertam curiosidade: e não é que é azul, mesmo? Um imediatista argumentou comigo: os seus frutos (iguaiszinhos, porém menores, paradoxo que se compreende vendo-os: um parece miniatura do outro, porém com o mesmo formato, e a mesma finalidade: o fornecimento de um suco de sabor muito agradável) fornecem sementes que custam a germinar.

    Acontece que tem gente que compra sementes da brahea, espera feliz da vida um ano para que germine, e acha que seis a oito meses da caraná se aproximam do que ele pensa ser uma eternidade. Pela beleza azulada das folhas e troncos jovens, é que estou propondo uma sinonímia botânica à caranã (nome científico: Maurittiela armata) PALMEIRA AZUL DA AMAZÔNIA!! Assim, poderá despertar a atenção no paisagismo, e mais uma espécie nossa irá enfeitar os espaços criados pelas cabeças pensantes que se dedicam ao estudo e crição de espaço cheios de encanto, e, se usada no paisagismo, terá garantida a sua preservação.

    Para foto ampliada e mais informações, clique aqui

  • Caribé com Ovos Escalfados

    Posted on maio 20th, 2009 Orlando Carneiro 1 comment

    (Texto do meu livro inédito Mais um? O churrasco descomplicado. Orlando Carneiro)

    Esta receita não tem nada a ver com churrasco, mas é que ela me atira como se catapultado à infância, e vou digitá-la para, num exercício de catarse, rever a tanta gente amada, inclusive a mim mesmo, criança ainda. É o seguinte: quando as crianças d’antanho adoeciam e adquiriam uma inapetência quase anorexórica, as mães se quedavam preocupadas. Quedavam-se, mas de imediato reagiam e partiam para uma ação tipo tiro e queda – ao menos para os paraenses. Faziam um caribé. Sabeis o que é, vós, os não-paraenses? É um mingau de farinha. De mandioca. (Base do chibé, que nós, os paraenses, ao paparmos, nos tornamos autênticos papa-chibés). Assim: farinha e água num recipiente, para inchar (a farinha). Depois, farinha inchada na água fervente de uma panela e o competente sal (fino). Mexer, mexer, sem deixar que se formem as bolotas da farinha, e eis o caribé feito. Tudo que bem. Para incrementá-lo, duas medidas. Primeira: escalfar dois ovos. Sabeis o que seja? Bom: não vou vos dizer que escalfar ovos é fazê-los no escalfador, pois ficará tudo como dantes. Para facilitar o entendimento do tema: é jogar os ovos (de galinha) após a quebra da casca, e exame da qualidade, no mingau fervente, que eles são cozidos misturados ao mingau. Ficam deliciosos, espalhados por entre a farinha tornada mingau. Segunda (a providência, lembrai-vos): colocar no mingau quente, já no prato ou na xícara, uma bela duma grande colherada de manteiga. Manteiga, e da boa. Ela fica derretendo, formando imagens como se nuvens fosse, um chamariz à prova e à alimentação, mesmo que inapetente o público-alvo. Prato de grande sustança, destes que batem na fraqueza e levantam a moral, suores pingando na ponta do queixo. Tudo que bem que escalfar ovos, tecnicamente, é jogá-los na água quente do escalfador que existe, sim, mas o primeiro que escalfou os seus ovos, talvez por não ser papa-chibé, não conhecia farinha e, por desconhecê-la, não sabia o que era um caribé velho de guerra.

    Pronto, e desculpai-me, mas na digitação revi a casa da infância, aos meus jovens pais, infantes irmãos, a mim, criança, e a um belo prato de caribé com ovos escalfados e manteiga derretida formando imagens como se nuvens fosse!


  • PELA POPULARIZAÇÃO DA PAXIÚBA

    Posted on maio 10th, 2009 Orlando Carneiro 4 comments

    paxiuba2Se disser que ela é exótica, que aos não botânicos poderá parecer estranho, diferente, estará estabelecida uma confusão: será ela oriunda de outra região, país, clima, como pressupõe o termo, aos técnicos do setor? “Singular”, adjetiva bem. Ela é da Amazônia, a mais singular das palmeiras destas matas.

    É preciso que se diga que ela não é uma unanimidade, e desperta sentimentos opostos, que vão do extasiamento ante uma beleza percebida individualmente, à definição que as suas características a enfeiam. Estas características diferenciais estão nas suas raízes aéreas, grossas, sutilmente aculeadas, que continuam a sair do tronco, cada vez mais altas, conferindo a citada singularidade. A copa, não: a copa é uma quase unanimidade, pois é elegante, confere à palmeira um beleza acentuada. Já ouvi: “se ela não tivesse estas raízes aéreas, seria linda”. Questão de gosto: se não tivesse estas raízes aéreas, seria parece a “laca negra”, esta sim, exótica, trazida das bandas de Nova Guiné. Seria bonita, sim, porém com uma beleza parecida a tantas. Completando: ela faz parte de um grupo, pois tem semelhantes no estilo: a paxiúba barriguda, ou paxiubão, mais grossa no tronco, e as paxiubinhas, mais finas, porém com o mesmo formato . Tem quem confunda a paxiúba com a caiuê – outra singularidade nossa, a “dendê do Pará” (substituída pela dendezeira africana), a (traduzindo o nome) “árvore que anda”, pois deita o tronco quando na sombra e desloca a sua copa para “buracos de sol” onde, enfim, crescerá, ficando parece um lagartão estirado preguiçosamente no solo. A confusão é porque muita gente, ao ver tantas raízes na paxiúba, pensa que estas a deslocam espacialmente, mas não é verdade: as raízes são de sustentação. Mas não apenas dela, palmeira: servem, pela dureza e durabilidade, para sustentação de paredes caboclas, para os pisos que irão durar nas casas do homem do interior. Há uma constatação entristecedora: mesmo na Amazônia, muita, mas muita gente desconhece a paxiúba. O que é pena: por ser a mais, repito, singular das palmeiras nossas, ela representaria bem a Amazônia: muitas raízes, para tentar se manter em pé, porém desconhecida por tantos, mesmo por muitos que a defendem. Integro o “grupo do extasiamento”: para mim, uma das mais belas das nossas palmáceas. E pela sua popularização lutarei, fazendo-a, inclusive, o símbolo da futura Fundação Preservacionista e Paisagística “Sonho do Carneiro”.