Cultura Amazônica e Preservação Ambiental
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  • A Volta

    Posted on fevereiro 19th, 2010 Orlando Carneiro 2 comments

    Tenho andando meio ausente do blog, mas tudo na vida tem uma explicação, ou desculpa, ainda que esfarrapada. A minha é justificada, e relatarei a seguir o que se passa.

    Vou lançar dois novos livros, provavelmente no dia 15 de abril, data de meu aniversário. É aquele negócio: reunir parentes, amigos, de uma forma um pouco diferente, acho que está pintando ser possível. Ocorre que estou naquela que, para mim, é a pior fase da criação literária: a que tem o trabalho pronto, a gente pensa que até revisado, mas é só pegar e saltam letras que escaparam da milésima revisão, ocorre um acréscimo num repente, uma novidade, um enxerto que, a gente pensa, enriquecerá o trabalho. E tem mais: como tenho minhas obrigações profissionais, o tempo que resta ao projeto “livros” é diminuto. Acho que o editor já está quase gritando “pira paz, não quero mais”, e vai abandonar o projeto próximo à linha de chegada.

    Um dos livros encontra uma facilidade maior, e, diria, está pronto, faltam apenas detalhes da capa. É o Canto de Página II, reunindo crônicas e contos publicados em coluna minha do jornal Diário do Pará, de Belém. Como é para registro de uma fase da coluna, é II porque já houve um antes: este tem os trabalhos concluídos. O outro, não. O outro, de nome “+!? O Churrasco Descomplicado”, tem por base a culinária e como carro chefe o churrasco, mas longe de ser um livro que só trate de pratos e assados. Longe disto: tem crônicas, mini-contos, histórias, da humanidade e da carne, é um livro que foge do lugar comum dos livros culinaristas. Bom? Deixem-me que diga: só um cara com autocrítica perto do zero lançaria um livro em que não vê qualidade. Ocorre que cada ser humano tem a sua forma de pensar, a sua base de apreciação literária. A uns, vai agradar, decerto, a outros nem tanto, e não me admirarei se alguns abominarem. É assim com tudo o que é pessoal, na vida, visto por observador de fora. Ao ser publicado, o escritor perde o controle sobre a sua criação. O que posso dizer é que foi prazeroso escrevê-lo, espero que a uns e outros seja lê-lo.

    Assim que eu me livrar destes dois livros – creio que agora, no final de fevereiro, eu voltarei à Amazônia de onde nunca saí. Ela sim, paulatinamente está saindo do mapa. Com maior ou menor velocidade, pode ser, mas que está – continua – encolhendo, está, e cada vez mais, e não sei se esta geração de governantes terá inteligência e força suficientes para reverter o processo. Até agora, não. Á geração vindoura restará apenas, talvez, apagar o fogo. Não demoro.

  • E n´é que n´é? O Sonho em Quadrinhos da Revista Pororoca

    Posted on junho 7th, 2009 Orlando Carneiro No comments
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    Detalhe do Quadrinho "Sonho do Carneiro".

    “E n´é qui né”? Era um jogo de palavras, que na brincadeira do meu tempo criança se usava ao se deparar com o inusitado. “E n´é qui né”? Foi o que pensei, num regresso da mente a tempos felizes, ao saber que parte da minha vida havia sido quadrinizada pela Revista Pororoca, em seu segundo número.

    A revista é séria, é bonita, é indicadora de rumos. Pois fui avisado: “O Sonho do Carneiro” – bosque que plantei em Marituba, cidade da região metropolitana de Belém, Pará – “virou história em quadrinhos”, foi-me dito assim, como se coisa simples, comum. E foi?

    E n´é que foi? Pois eu estou lá, em canoa, em trilhas pelo meio do mato, em conversa com índio, tudo atrás de mudas que pudessem ser preservadas, num grito mudo contra esta insensatez que troca o mil pelo seis. Não sou um super herói, sou um ser fragilizado, mas sou, antes de tudo, um amante da Amazônia, testemunha viva da degradação da floresta. Depois deste texto, leiam os a seguir, publicados no meu livro “Novelário”, para que vejam que, desde 1979, ano da publicação do livro, (e mesmo antes), eu já gritava contra o avanço da destruição sem peias, em outros textos/colaborações espalhados pelos jornais da terra.

    Eu sempre disse, quando me perguntam de quem a culpa pelo descalabro com relação à Amazônia: do Governo. Não este, não aquele: todos os que se identificam pela palavra, pode ser comandado por Professor Doutor, ou por Operário Torneiro que no fundo é tudo igual. Madeira não se transporta via satélite: vai via rodoviária, ou marítima. Não é pouca, não é leve, não é camuflável: se ela vai, pode ser vista. Como consegue passar? Uma. Outra. Lei manda que se mostre certificado de procedência, que lá fora a maioria exige: se vendem armário de mogno, declarando ser de eucalipto, a culpa da queda daquela árvore de mogno, virada móvel, é de quem não fiscaliza a mudança, tanto quanto de quem derrubou a árvore, e de quem fabricou o móvel sem nem querer saber de onde veio aquela madeira, sobrando para o comprador, que não deveria comprar sem questionar. Queimou-se a mata para criar boi: tinha licença? Quem deve saber? Quem deve perguntar? O Governo.

    Ah, não tem licença? Vai pastar, desgramado, palavra que identifica aquele que não tem nem pode ter, (ao menos ali), a grama que vai substituir sabe-se lá quantos cem anos da criação de um espaço formado longa, silenciosa e cuidadosamente pela natureza. Quem compra o móvel proibido é culpado? Tudo que bem: é, também. Mas quem deveria ter criado, desde muito tempo, nas crianças, a consciência do certo/errado? O Governo, pois deveria ter obrigado a escola, além de ensinar que b com a faz BA, e que Ivo viu a uva, a orientar a meninada rumo à cidadania, dizendo entre outras coisas: se vires uma loja vendendo mogno e outras madeiras relacionadas com apuro no rumo da extinção, grita, esperneia: é o teu país que está empobrecendo de graça, e tu serás uma das maiores vítimas, mesmo que longe da derrubada, dos seus efeitos!

    “Ah, mas a biopirataria é uma realidade”. Acreditem, se quiserem: o spilanthol, substância encontrada no nosso velho jambú, conhecido dos indígenas antes da chegada dos europeus, tem patentes internacionais pedidas nos Estados Unidos, França, Inglaterra e Japão. Está virando pasta de dentes e perfume. Não tardará e iremos diminuindo o grito do que “é nosso”, e deixaremos de dizer que “a Amazônia é nossa” e mentiremos até ao dizer que “o jambú é nosso”, pois nem ele será mais! Não quero ser repetitivo: mas de quem a culpa? Nem digito, para não perder tempo. Só um argumento: quantas e quais as ONGS que funcionam na Amazônia? Quais, e para que recebem incentivo do Governo?

    É o ribeirinho que tem que responder a estas perguntas, fazer o controle? Ora, “se espremer”, como diz o caboclo, no caldo tirado ninguém deverá se surpreender se aflorar a informação que o Governo paga biopiratas para que eles façam melhor o seu trabalho! Toda grande Nação começa pelo investimento maciço na educação. No Brasil ainda se está na fase de greves por salários, uma Secretaria Estadual de Educação distribui mapas com dois Paraguais e obras de Kama Sutra para estudantes pré-adolescentes…

    Desde por volta de 1980, esquadrinhei a Amazônia para catar mudas ou sementes de espécies cada vez em menor número na floresta. Porque? Para perseguir um sonho (que virou o Sonho do Carneiro): se a clonagem via células, de vegetais, se sedimentar, vencer os desafios, não apenas na multiplicação, que esta está quase toda dominada, mas na sanidade dos resultados, na possibilidade da monocultura, uma folha de uma árvore poderá ser usada para recriar a espécie. Coisa assim, simples, sem maiores pretensões.

    Se tem quem ache que esta ação não resultará em nada, tem quem pense que a atividade é inteligente, é corajosa, é admirável. E sabe o que mais? Depois de um certo tempo tateando meio como que no escuro, ao ver quanto caminho percorrido, ao ter conseguido tanta coisa difícil, ao ver o bosque formado, igual a tantos pisados, ao ver aves e mamíferos cada vez mais raros de se ver em regiões metropolitanas, trazidos ao Bosque pelo faro do seu destino, passei a acreditar um pouco nos conceitos assim adjetivados.

    E eis que, de repente, aquele desenhado ali na Pororoca sou eu, aquela história é uma parcela da minha história pessoal, que rebuscou até um episódio dos idos 60 do Século passado, quando foi lançado o “freezer” em Belém do Pará e eu fazia um comercial “ao vivo”, saindo dele e proclamando que dali saía “até um carneiro vivo, mesmo que com quase dois metros e cem quilos”…. Ao ler a revista, quase eu viro, de Carneiro, Pavão, mas não: vou continuar assim, o Carneiro que sonha em meio ao pesadelo que assola a Amazônia. Só um “mais”: procure conhecer a Revista Pororoca. Vale a pena. Ela, por si só, é uma bela história de amor com a Amazônia.

    AMAZÔNIA. Crônica publicada no meu livro NOVELÁRIO, em 1979

    Voando, vê-se fumaça

    Uma aqui, outra distante. Uma à esquerda, outra à direita.

    Em avião pequeno, fácil identificar.

    Vôo baixo, árvores empretecidas.

    O rasteiro substituindo o copado alto.

    Em avião maior, difícil detalhar.

    É um verde que não acaba mais.

    São águas serpenteando em meio ao verde.

    De repente, a notícia.

    Foi fogo tanto, que satélite se assustou.

    (Um destes, que estão sempre detalhando a terra da gente)
    Amazônia
    Ainda que te expliquem,

    que justifiquem,

    já foste mais verde, para quem, como eu, nasceu pisando teu chão,

    andando e vendo,

    testemunhando.

    Eram, eram sim, mais árvores. Muito, mas muito mais.

    Era, era sim, mais verde. Muito mais.
    Quantificam o teu desaparecimento, dizendo ser bobagem a mutilação.

    Com ares superiores, desdenham a quem teme pelo teu futuro.

    E estás menor. Ampliam tuas fronteiras teóricas, amazonizando até terras áridas.

    Na pintura do mapa, lê-se pomposamente “Amazônia Legal”.

    E tu, a verde, a dos rios, és ilegal?

    Se depender de ti o oxigênio do mundo, que as futuras gerações aprendam a respirar oxigênio em lata.
    Historiadores e estudiosos debruçam-se em detalhes para saber como áreas verdes do planeta terra transformaram-se em deserto. Seremos nós testemunhas oculares do processo?
    Amazônia.

    Orem por ti, os que te amam

    AVE, MAJESTADE. Crônica publicada no meu livro NOVELÁRIO, em 1979

    Para que pudesse vir Sua Majestade, foi preciso muita coisa. Mudar tudo. Primeiro: S.M. não gosta de terreno arborizado. Que sejam derrubadas todas as árvores do local.

    O chão era úmido. Pedaços dele há Séculos não viam um raio de sol.

    As folhas caíam, apodreciam no solo, na umidade, em um renovar constante de fertilidade.
    Mas vinha aí S.M.

    E foram as árvores, nobres e plebéias, ao solo. Inclusive algumas cuja presença mantinha imutáveis margens de igarapés.

    Um trabalho insano, para atender S.M.

    Não apenas derrubar: queimar, acabar.

    O sol quente ressecou a terra que foi um dia permanentemente úmida e fértil.

    Os igarapés viram suas margens desnudadas, a erosão desenhando sucos nas laterais, até que o caminho de água se tornou para sempre chão duro.

    Replanta neste terreno seco. Tira a água das entranhas da terra, irriga, traz energia, canaliza. Atende a S.M.

    Terra exposta? Replanta

    Olha que bonito: a água esguichando em rotação, vitória, vitória, filma e fotografa mais uma beleza criada pela inteligência humana.

    E crescem as plantinhas. O vento, forte, arriando e levantando talos e folhas, como se em balé sincronizado, em imensa área, onde antes era um impenetrável ajuntamento de troncos.
    Eia, pois, tudo pronto.

    Que venha Sua Majestade, o BOI.

    Ao invés de oxigênio, respire o homem bosta de boi.

  • Caribé com Ovos Escalfados

    Posted on maio 20th, 2009 Orlando Carneiro 1 comment

    (Texto do meu livro inédito Mais um? O churrasco descomplicado. Orlando Carneiro)

    Esta receita não tem nada a ver com churrasco, mas é que ela me atira como se catapultado à infância, e vou digitá-la para, num exercício de catarse, rever a tanta gente amada, inclusive a mim mesmo, criança ainda. É o seguinte: quando as crianças d’antanho adoeciam e adquiriam uma inapetência quase anorexórica, as mães se quedavam preocupadas. Quedavam-se, mas de imediato reagiam e partiam para uma ação tipo tiro e queda – ao menos para os paraenses. Faziam um caribé. Sabeis o que é, vós, os não-paraenses? É um mingau de farinha. De mandioca. (Base do chibé, que nós, os paraenses, ao paparmos, nos tornamos autênticos papa-chibés). Assim: farinha e água num recipiente, para inchar (a farinha). Depois, farinha inchada na água fervente de uma panela e o competente sal (fino). Mexer, mexer, sem deixar que se formem as bolotas da farinha, e eis o caribé feito. Tudo que bem. Para incrementá-lo, duas medidas. Primeira: escalfar dois ovos. Sabeis o que seja? Bom: não vou vos dizer que escalfar ovos é fazê-los no escalfador, pois ficará tudo como dantes. Para facilitar o entendimento do tema: é jogar os ovos (de galinha) após a quebra da casca, e exame da qualidade, no mingau fervente, que eles são cozidos misturados ao mingau. Ficam deliciosos, espalhados por entre a farinha tornada mingau. Segunda (a providência, lembrai-vos): colocar no mingau quente, já no prato ou na xícara, uma bela duma grande colherada de manteiga. Manteiga, e da boa. Ela fica derretendo, formando imagens como se nuvens fosse, um chamariz à prova e à alimentação, mesmo que inapetente o público-alvo. Prato de grande sustança, destes que batem na fraqueza e levantam a moral, suores pingando na ponta do queixo. Tudo que bem que escalfar ovos, tecnicamente, é jogá-los na água quente do escalfador que existe, sim, mas o primeiro que escalfou os seus ovos, talvez por não ser papa-chibé, não conhecia farinha e, por desconhecê-la, não sabia o que era um caribé velho de guerra.

    Pronto, e desculpai-me, mas na digitação revi a casa da infância, aos meus jovens pais, infantes irmãos, a mim, criança, e a um belo prato de caribé com ovos escalfados e manteiga derretida formando imagens como se nuvens fosse!


  • PELA POPULARIZAÇÃO DA PAXIÚBA

    Posted on maio 10th, 2009 Orlando Carneiro 4 comments

    paxiuba2Se disser que ela é exótica, que aos não botânicos poderá parecer estranho, diferente, estará estabelecida uma confusão: será ela oriunda de outra região, país, clima, como pressupõe o termo, aos técnicos do setor? “Singular”, adjetiva bem. Ela é da Amazônia, a mais singular das palmeiras destas matas.

    É preciso que se diga que ela não é uma unanimidade, e desperta sentimentos opostos, que vão do extasiamento ante uma beleza percebida individualmente, à definição que as suas características a enfeiam. Estas características diferenciais estão nas suas raízes aéreas, grossas, sutilmente aculeadas, que continuam a sair do tronco, cada vez mais altas, conferindo a citada singularidade. A copa, não: a copa é uma quase unanimidade, pois é elegante, confere à palmeira um beleza acentuada. Já ouvi: “se ela não tivesse estas raízes aéreas, seria linda”. Questão de gosto: se não tivesse estas raízes aéreas, seria parece a “laca negra”, esta sim, exótica, trazida das bandas de Nova Guiné. Seria bonita, sim, porém com uma beleza parecida a tantas. Completando: ela faz parte de um grupo, pois tem semelhantes no estilo: a paxiúba barriguda, ou paxiubão, mais grossa no tronco, e as paxiubinhas, mais finas, porém com o mesmo formato . Tem quem confunda a paxiúba com a caiuê – outra singularidade nossa, a “dendê do Pará” (substituída pela dendezeira africana), a (traduzindo o nome) “árvore que anda”, pois deita o tronco quando na sombra e desloca a sua copa para “buracos de sol” onde, enfim, crescerá, ficando parece um lagartão estirado preguiçosamente no solo. A confusão é porque muita gente, ao ver tantas raízes na paxiúba, pensa que estas a deslocam espacialmente, mas não é verdade: as raízes são de sustentação. Mas não apenas dela, palmeira: servem, pela dureza e durabilidade, para sustentação de paredes caboclas, para os pisos que irão durar nas casas do homem do interior. Há uma constatação entristecedora: mesmo na Amazônia, muita, mas muita gente desconhece a paxiúba. O que é pena: por ser a mais, repito, singular das palmeiras nossas, ela representaria bem a Amazônia: muitas raízes, para tentar se manter em pé, porém desconhecida por tantos, mesmo por muitos que a defendem. Integro o “grupo do extasiamento”: para mim, uma das mais belas das nossas palmáceas. E pela sua popularização lutarei, fazendo-a, inclusive, o símbolo da futura Fundação Preservacionista e Paisagística “Sonho do Carneiro”.